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O turismo de vinho no Vale do Douro – a mais antiga região legalmente demarcada – pode por vezes parecer parado no tempo. A Quinta da Vacaria, apesar dos seus mais de 400 anos, quer mudar esta regra. Desde que mudou de proprietários em 2015, a quinta, localizada mesmo à saída de Peso da Régua, mergulhou de cabeça no enoturismo, através de uma aposta que inclui hotel, restaurante e uma adega ligada a um centro de visitas. Uma renovação que deu origem a um espaço de referência, elegante e acolhedor.
Visto que o vinho é produzido na Quinta da Vacaria desde 1616, é natural começarmos este roteiro pelo edifício que alberga a adega e o centro de visitas. Inaugurado em 2023, este espaço de arquitetura contemporânea privilegia a horizontalidade, estendendo-se ao longo do rio Douro e integrando-se discretamente na encosta. A visita é conduzida por Laura Cruz, responsável pelo enoturismo da quinta, que nos guia pela adega, onde convivem tecnologia de ponta — como um lagar equipado com "pernas" robotizadas para a pisa das uvas — e métodos mais tradicionais e experimentais, representados por seis talhas destinadas à produção de pequenos lotes de vinho.
Descemos até a adega, que, em conjunto com a estrutura maior e o seu hotel, têm a assinatura de Luís Miguel Oliveira do LMCO, um atelier situado fora do Porto. Neste espaço encontramos algumas das salas de prova mais surrealistas que já encontrámos: um cubo de vidro que parece flutuar sobre as barricas e uma sala de pé-direito duplo, inspirada na forma de um silo, revestida por garrafas e dominada por um impressionante candeeiro inspirado em folhas de videira. Segundo Laura Cruz, esta última foi eleita a melhor sala de provas de Portugal em 2025.
É precisamente daqui que partimos para o evento principal: uma prova de vinhos. Pelos padrões do Douro, a Quinta da Vacaria é uma pequena produtora, lançando entre 115.000 a 117.000 garrafas por ano. Por isso, como nos relembra Laura, as provas são mais intimistas. Ao contrário dos seus pares multi-geracionais, o portfólio da Quinta da Vacaria inclui diversos vinhos brancos monocasta, além dos clássicos tintos do Douro e vinhos do Porto.
Os brancos conquistam-nos pela acidez e marcada mineralidade. Entre os destaques estão o Reserva Branco Rabigato 2023 e o Reserva Branco Viosinho 2023, que Laura Cruz descreve como “entrar num jardim repleto de flores e frutos tropicais”. Mas são os vinhos do Porto que verdadeiramente nos surpreendem. O Tawny 20 Anos, nas palavras de Cruz, é “como uma jovem que chega e faz parar todos para a admirar”, enquanto o Tawny 30 Anos é “uma bailarina que dança com uma elegância extraordinária”.
A nossa prova estende-se ao azeite, que a propriedade também produz. Apontando para as colinas repletas de vinhas à volta do rio, Laura explica-nos que as oliveiras ainda são utilizadas para demarcar os limites das propriedades no Vale do Douro. Os verões quentes, os invernos rigorosos e os solos de xisto da região favorecem tanto a produção de azeitona como a de uva. Entre os destaques está o azeite Premium da Quinta da Vacaria, produzido exclusivamente a partir de azeitonas provenientes de oliveiras centenárias (das variedades cobrançosa, madural e negrinha de Freixo), cuidadosamente selecionadas e transformadas de forma artesanal. O resultado é um lote de perfil intenso, ligeiramente picante e marcadamente gastronómico.
Com as papilas gustativas já fatigadas, Laura sugere que façamos uma pausa. Entramos num jipe e seguimos encosta acima, entre a poeira dos caminhos e as vinhas, até à Casa da Vinha, uma sala de provas situada no topo da propriedade, com amplas janelas panorâmicas. Segundo Laura, estamos a apenas 200 metros do rio, mas a sensação é de estarmos num lugar muito mais alto, rodeados apenas pela paisagem do Douro.
Em 2015, a Quinta da Vacaria foi adquirida pelo grupo Marec. Além de terem escolhido engarrafar vinho próprio (até então, a Quinta vendia as uvas apenas a outros produtores), o grupo colaborou com a Torel Boutiques, para concretizar o primeiro investimento da propriedade no enoturismo, o Torel Quinta da Vacaria.
O hotel abriu portas em Agosto de 2024. No centro deste projecto estão os dois edifícios originais, um deles inclui uma capela construída em 1732. Ao entrar, é imediatamente evidente a linguagem contemporânea do hotel, fruto do trabalho do atelier LMCO e da designer de interiores Joana Astolfi. Essa identidade revela-se logo no lobby, onde um pé-direito imponente, mobiliário de linhas modernas e uma colaboração com a Galeria Filomena Soares, de Lisboa, dão lugar a fotografias e pinturas que convidam a um segundo olhar.
Os 33 quartos e suites distribuem-se por nove categorias e apresentam uma decoração em tons pastel de inspiração orgânica, complementada por almofadas e mantas de lã e revestimentos têxteis nas paredes com padrões que evocam a tradição. Os três edifícios, implantados paralelamente ao rio Douro e à linha férrea adjacente — a propriedade inclui uma antiga estação ferroviária desativada — estão rodeados por vinhas e integram-se de tal forma na encosta que quase passam despercebidos na paisagem. Está ainda em fase de conclusão um conjunto de 18 novos quartos, cada um com piscina privativa, distribuídos por uma encosta na zona da adega, a poucos minutos a pé do hotel.
Com cerca de 1.000 metros quadrados, o spa é o maior da região do Douro e inclui uma piscina interior aquecida, quatro saunas e um ginásio. Entre os tratamentos de assinatura destaca-se a vinoterapia, uma experiência que inclui uma esfoliação à base de uva, um banho de vinho tinto e uma massagem de duas horas com pedras de xisto aquecidas, terminando, naturalmente, com uma garrafa de vinho.
A partir do ângulo certo, parece não existir qualquer separação entre o rio Douro e a piscina infinita do hotel. No dia da nossa visita, os hóspedes descontraíam ao sol enquanto pediam copos de rosé bem fresco e os funcionários distribuíam toalhas refrescadas. Basta levantar o olhar em qualquer direção para encontrar canteiros de ervas aromáticas — o ar em redor do hotel é perfumado por alfazema — hortas, oliveiras, árvores de fruto e, claro, vinhas.
A envolvente rural convida à exploração. Na nossa primeira manhã no hotel, saímos a pé pela estrada tranquila que acompanha as curvas do rio, ao som do canto dos pássaros, enquanto o comboio da Linha do Douro passa ao longe.
À primeira vista, a característica mais impressionante do restaurante Schistó, o principal do Torel Quinta da Vacaria, é a sua disposição. Entre na sala de jantar, que está envolvida em cortinas pesadas em verde-ervilha e em verde-água, e notará que não há diferença entre os comensais e os chefs. Aqui, sete mesas que sentam, no máximo, 14 convidados, partilham o mesmo espaço que a cozinha aberta, onde uma linha de confeção e duas ilhas de preparação e empratamento expõem os chefs ao contacto direto com os clientes.
O resultado é uma experiência que faz lembrar um jantar em casa — isto se a sua casa fosse um elegante refúgio gastronómico, com uma equipa de talentosos chefs privados a cozinhar exclusivamente para si.
“Não usamos foie gras, trufas ou caviar”, explica Vítor Gomes, chef residente do restaurante, quando lhe pedimos que descreva o conceito do Schistó. Em vez disso, destaca os pratos e os ingredientes típicos do Douro e de outras regiões do Norte de Portugal, os produtos provenientes da horta e da quinta e, de forma pouco habitual na gastronomia portuguesa, o peixe dos rios da região. Esta filosofia, centrada no ingrediente e na sua origem, serve de base ao menu de degustação de 10 momentos do restaurante.
Entre os destaques estão pratos que conjugam ingredientes improváveis, muitas vezes unidos por um subtil apontamento fumado (um aroma nem sempre presente na alta cozinha e que, aqui, recorda de imediato a tradição gastronómica do norte do país). É o caso da enguia fumada, leitelho e maçã, uma combinação harmoniosa entre o sabor fumado da enguia, a untuosidade do leitelho e as notas frescas das folhas de capuchinha.
Outro destaque é o lombinho de porco bísaro e espargos: um corte suculento e rico, finalizado na grelha e servido com demi-glace e espargos pontuados por crocantes torresmos. Um prato de pão liga vários sabores, como um delicioso e rico folar recheado com toucinho, manteiga com aroma de avelã e, como não poderia deixar de ser, os azeites produzidos na propriedade. Já a sobremesa casa a frescura das cerejas de fim-de-estação com o floral do sabugueiro. A sobriedade da louça, maioritariamente branca, serve de palco a um empratamento vibrante e cheio de cor, resultando em pratos tão bonitos quanto saborosos. A experiência completa-se com uma harmonização de oito vinhos, exclusivamente da Quinta da Vacaria.
A oferta gastronómica do hotel inclui ainda o 16Legoas, um restaurante de ambiente mais descontraído, e o Barbus, um bar, ambos, à semelhança do Schistó, sob a supervisão do chef consultor Vítor Matos, um dos mais conceituados na cozinha contemporânea portuguesa. Em breve, a Quinta da Vacaria passará também a contar com o Fumus, liderado pela chef Lídia Brás, cuja proposta se centra numa cozinha portuguesa mais tradicional e de conforto.
Quinta da Vacaria: Estrada Nacional 313-1, 5050-365 Peso da Régua. Telefone: 964 430 091
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