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Se perguntar a vários portuenses qual é a melhor francesinha da cidade, a resposta será sempre diferente. Cada um defenderá aguerridamente a sua dama, jurando não haver melhor francesinha do que a sua. Cabe-nos, então, mediar a discussão, sugerindo alguns dos lugares com mais peso neste receituário.
Hoje, a sopa é uma amizade romanceada, é um amor platónico consumado, é tudo e o seu contrário, porque pode ser uma coisa hoje e amanhã outra completamente diferente — e isso é bom, como a sopa.
Note-se: a sopa, ainda que seja sempre sopa em qualquer lado, nunca se repete em cozinhas diferentes, daí vem também boa parte da magia do prato. E as cozinhas portuguesas têm mestria na hora de servir sopa, de a reproduzir, reimaginar, recuperar, de a tornar essencial na refeição (ou fora dela).
Ao mesmo tempo, os Soletes do Guia Repsol são um espelho polido da gastronomia quotidiana nacional, com todas as suas influências, referências e transformações. Juntámos tudo num caldinho e fomos à descoberta
O menos avisado dos curiosos entra na Cervejaria Gazela e diz que só quer “ver”, diz que “já ouviu falar” e talvez faça “umas fotos”. Senta-se ao balcão, vê os cachorrinhos, sucumbe à gulodice e já está, já faz parte da história. Diz que não quer mais nada, mas há um empregado, tão matreiro quanto bom vendedor, que o leva a beber um fino, talvez passem a dois e no fim precisa de algo mais, precisa de arrumar a casa.
Dizem-lhe que nada é melhor do que um caldo verde. Corrigimos: nada é melhor do que “aquele” caldo verde, metáfora perfeita para o que ali se passa: a ruralidade no meio do granito urbano, a cidade que é eterno campo, no tom, no trato e no paladar. Abençoado caldo.
Cervejaria Gazela: Travessa do Cimo de Vila 4, 4000-434 Porto. Telefone: 221 124 981. De segunda a sábado, das 12h às 22h30.
Já toda a gente ouviu falar na Bogotá, quem nunca lá foi jura-se surpreendido quando alguém lhe diz que “é na Amadora”. Quem não conhece, pergunta-se: como assim, ir até à Amadora para comer seja o que for. Qual bifana? Qual prego? Como assim, fecha tarde, está disponível, é comunitário, é coisa de lenda urbana, é uma espécie de clubismo, mas com pão, muito molho, bom alho?
Ficam confusos, mas, mais tarde, seja no início ou no final, sem regras e sem oposições, passam a fazer aquele sinal de quem precisa da melhor das companhias para uma refeição entre fatias de trigo: uma canja. Quente, com alma, com vontade, com gordura, com história e a deixar memória. Ide. Assim que possam.
Cervejaria Bogotá: Avenida Santos Mattos 3, 2700-747 Amadora. Telefone: 214 930 342. De segunda a sábado, das 10h às 00h
Um dos aspetos mais extraordinários da existência dos restaurantes é a surpresa. Claro, em muitos casos sabemos ao que vamos. Aliás, vamos lá precisamente pelo que já conhecemos. Mas antes desse momentos, o desconhecido é sedutor. É como se fôssemos sujeitos a uma tentação, mas como não é pecado só temos de seguir em frente.
O Zé do Pernil entra nesta categoria: queremos experimentar, não sabemos ao que vamos mas sabemos que vamos por ali. E, quando além da carne que se desfia como mel, nos é apresentada uma rica, densa, perfumada e musculada sopa de repolho, o que podemos nós dizer a não ser “tudo isto valeu a pena e voltará a valer na próxima vez”.
Zé do Pernil: Avenida Alberto Sampaio, 3510-027 Viseu. Telefone: 232 397 941. Todos os dias, das 12h às 22h30.
A Taberna do Cesário fecha à segunda-feira. Não podia ser de outra forma. O domingo costuma ser a jornada habitual do ensopado de borrego e do cozido de grão. É trabalho pesado que merece descanso no dia seguinte.
Ao dito domingo, esta Taberna de letra maiúscula só abre ao almoço, talvez porque no dia anterior é a vez do cação. Este primo do tubarão é aqui a estrela das melhores sopas do Alentejo, plenas de corpo e alma. Se podia ir de visita ao Cesário em qualquer outro dia? Claro que podia. Mas porque havia de não passar por lá ao sábado? Pense nisso.
Taberna do Cesário: Rua Venâncio Rosa Gabriel 5, 7800-654 Beja. Telefone: 969 103 680. De terça a sábado, das 07h30 às 00h. Ao sábado, das 07h30 às 14h45.
A açorda de que aqui se fala é a alentejana, e não aquela que tantas vezes é servida assim que se deixam os distritos do sul do país. É uma sopa, ponto. Uma sopa que não é cozinhada no tacho, é antes uma sopa que é montada no prato, com o sal, as ervas e o alho, a água fervida da cozedura do bacalhau ou outro peixe, por exemplo, o ovo, o pão alentejano, o azeite, a glória, a beleza, o espanto de cada vez que se prova mais uma colherada desta maravilha (de facto classificada como Maravilha Gastronómica, não é invenção nossa, ainda que pareça). E se tiver dúvidas porque o Luiz da Rocha entra na categoria “café/pastelaria”, nada tema. Avance.
Luiz da Rocha: Rua Capitão João Francisco de Sousa 63, 7800-475 Beja. Telefone: 284 323 179. Todos os dias, das 08h às 23h.
Há qualquer coisa de especial num estabelecimento cuja firma é um nome próprio. Mesmo quem nunca lá entrou vai querer conhecer a pessoa em causa. Quem é o Túlio? De onde vem o Túlio? Qual é a história do Túlio? Que comida é esta que se come em casa do Túlio? Falamos de Monte Arneiro, perto de Nisa, distrito de Portalegre, de vontades viradas para o Tejo, a explorar o rio nas suas melhores formas.
É desta atitude que surge a sopa de peixe, clássica, lendária, que se espalhou por tudo o que é latitude. Prestam vénias ao barbo. Fazem a adoração do sável. E nós, a prestar vassalagem com o Túlio. De tal forma entregues ao encanto da iguaria que nos esquecemos da pergunta original: afinal, quem é o Túlio? Vá à descoberta, merece esclarecer todas as dúvidas à mesa.
O Túlio: Rua Francisco Diogo Pinto 1, Monte do Arneiro, 6050-452 Nisa. Telefone: 245 469 129. Todos os dias, das 12h às 16h e das 19h às 22h.
A boa comida tem destas coisas: nem sempre está no sítio mais óbvio. Ao mesmo tempo, as aparências iludem. Isto para avisar os menos preparados e que podem duvidar que num centro comercial meio escondido é possível encontrar um pozole de referência.
Recordemos o que importa: pozole é um guisado em forma de sopa, que tem o milho como base e que inclui carne, vegetais, queijo e malaguetas. É quente como a sopa deve ser — pelo menos esta — e é quente como a filosofia do Potzália exige, seguindo a tradição mexicana e servindo como um dos melhores exemplos desta gastronomia em Lisboa. Agradeçamos a Sandra Ruiz, a mexicana que abriu esta cantinho de calor latino-americano.
Potzalia: Centro Comercial Entrecampos, Avenida Álvaro Pais 13, 1600-316 Lisboa. Telefone: 916 962 509. De terça a sexta, das 12h às 15h e das 19h às 22h. Sábado, das 12h às 16h e das 19h às 23h. Fecha ao domingo e à segunda.
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